Pular para o conteúdo principal


Sempre gostei, sem saber o porquê, de casas com forro velho de madeira, daqueles com cara da casa da vó... Na minha era diferente, até foi madeira, um tempo, mas tinha aquele ar moderninho, a arquitetura extravagante que não me aquecia com aquela alergia nostálgica que as coisas antigas me trazem.
Agora era outro o cenário, o sobradinho que eu sempre quis, mas que não era meu, nem era meu o lugar que eu queria ali. Eu me conformava, dizem, me calava e galgava os degraus gelados de concreto.
Aquele quarto era frio demais. Aliás, aquela era a única parte de toda a casa que mantinha tão fria sua estrutura - disseram também que ali, onde eu dormia, fora um dia a casa toda, aquele gelado cubículo de cimento e pó.
Me encolhia sob a pilha de cobertores, mas a frigidez que me cortava a pele não estava no ar, vinha de dentro pra fora, e de tanto que queria sair, brotava em lágrimas - curioso - quentes. Cada movimento no andar de cima, faria ranger todo o resto.
Ao longo da noite todo o sobrado estalava, do solo ao teto, parecia chacoalhar no vento que eu podia ouvir pelas frestas, e vez ou outra era tão intenso esse som que cheguei a crer ouvir passos, passos que lentamente desciam as escadas... O coração acelerava de excitação e medo, era sombrio e escuro demais meu leito. Espreitava qualquer presença surgindo por entre as dezenas de livros que se empilhavam pelas paredes e no fundo, conseguia me convencer sempre de que ela surgiria ao pé do ultimo degrau, aproximando-se timidamente do meu colo até adormecer ali, para que a aurora nos viesse beijar, enfim juntas.
Era o vento, era só o vento a arrastar minhas fantasias pra longe.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trivial

De onde estou, vejo as pessoas, com muita pressa, cruzarem as ruas, sem muito olhar para os lados. Talvez um 'olá' aqui outro ali, nada mais... Ser trivial não te assusta? Pra mim é tão estranho imaginar que talvez duas dessas pessoas, que agora se cruzam sem nem perceberem a presença uma da outra, um dia possam ter se amado o suficiente pra enfrentarem qualquer coisa juntas, que um dia possam ter sido as amigas mais entregues que o mundo já viu, ou talvez que uma delas tenha sido aquela única no mundo em quem a outra confiou... e agora? Agora elas com muita sorte lembram-se de dizer 'bom dia'... Será que só eu, aqui sentada na janela estou percebendo o quanto tudo isso é triste? Será que só meu coração aperta de imaginar que isso acontece também comigo, contigo e com todos nós? É normal apagar assim, sem um mínimo pesar, a presença que outrora fora tão intensa? Todas as rosas, únicas no mundo, serão um dia como todas as outras cinco mil de um só jardim? E eu não poderi...

Era uma vez..

E quem disse que eu tenho todas as respostas? Às vezes a gente só quer sentir que pode confiar em alguém, um colo, um porto... A vida ensina que o amor é poder encontrar conforto em alguém. A segurança de um café quentinho e um abraço apertado. Não acredito em contos de fada, eu acredito na realidade que eu tenho. E ela é boa.

Vazio.

Foi-se o tempo em que a página branca bastava pra que as palavras pudessem dizer por mim o que minha voz não sabe fazer... Hoje passei boa parte do meu tempo diante da folha, rabiscando, riscando, rasgando... Nada fluindo dentro de mim... Cansada de falar, de tentar, de me agarrar quase sem forças às pedras enquanto a água de tantas tormentas me arrastavam para o fundo; com as mãos cortadas, sangrando, o rosto inchado de lágrimas, as pernas vacilando de medo... De tanto cansaço acabei me deixando levar, e resolvi calar qualquer mágoa, qualquer dor; Dizem que a água salgada cicatriza, eu deixo a água lavar meu corpo sem me importar pra onde vai; Aos poucos as descargas elétricas da tempestade esfarelam partes de mim e eu sinto que alguma delas está morrendo, e outra, e outra, e outra... É curioso, me sinto cada vez mais vazia, cada vez mais sem mim e ainda assim eu sou jogada cada vez mais fundo pela maré bravia, já não dói mais, começo a me esquecer quem fui. Quem serei agora?