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Le retour du passé



Um dia desses no trabalho eu percebi o motivo do meu descontentamento.
Logo que cheguei em meu novo emprego tive certa facilidade com as funções a exercer - é claro, não era a primeira vez que as fazia, tivera outro emprego semelhante um ano antes -, o que impressionou um pouco a minha monitora, percebi.
Não que eu fizesse algo muito impressionante, diga-se de passagem, mas saber o que fazer logo de cara não era tão comum por ali, imagino, então logo nos primeiros dias, como uma jovem tartaruga, fui deixada ali, na areia para que amadurecesse sozinha e caminhasse até o mar, sem que os predadores ao redor pudessem abocanhar-me no caminho. Ela confiava, por certo, no meu desempenho natural.
Saber o operacional e até alguns lances mais astutos do esquema por trás dele não é grande coisa, fui treinada pra isso antes, mas, a questão era que eu ainda era só um filhote, recém saido do ovo, eu não tinha forças o suficiente pra caminhar até a areia, e os predadores pareciam ainda mais terríveis depois que ela se foi, eu estava sozinha, sozinha e sem forças no meio de toda aquela areia branca, sem nem mesmo saber por onde começar o meu caminho.
Quanto drama não? Quanto drama pra falar sobre meu primeiro mês de trabalho... mas não, não é só isso.
Não fora minha monitora, ou o meu emprego que me deixaram a galgar só o caminho ao mar, fora a vida. Fiz-me forte diante dos primeiros perigos, e por tal audácia fui deixada só, desde filhote, obrigada a crescer cedo demais acabei por não formar direito.
Tornei-me então outra coisa, não tartaruga, mas um franguinho, daqueles frangos de granja, infestados de hormônio, que de tão rápido que precisam crescer, acabam por nascer com três cabeças. No meu caso, fui o frango que nasceu com uma perna só, acho.
Quando as outras crianças me empurravam porque eu era adulta demais pra brincar com elas, jamais pensariam que um dia eu seria criança demais pra brincar com os adultos, e no meio do caminho percebi que o tempo não voltaria, não tinha concerto, mal formada e com uma só patinha eu tinha que enfrentar o mundo sozinha...
Esse desespero me consome e me faz temer o tempo, o tempo que não volta, o tempo que não pára de correr, e pra não perdê-lo acabo não dormindo, não comendo, deixando de fazer qualquer coisa em que os minutos se consumam sem que possamos ver.

...


No meio da minha angústia encontrei alguém que me abriga e me faz sentir segura. Ri das minhas manhas, das carências e medos, me devolve à infância me abraçando e acarinhando meu rosto entre lágrimas, e ainda assim, me deseja e reconhece no arfar do meu peito a mulher que também sou, abrigando em seu corpo o meu calor que a procura. Cada palavra sua, acelera o coração como uma bobagem adolescente.
Ela me devolve tudo que eu nunca fui, e me leva aonde jamais iria. Teria eu descoberto, então, a verdadeira máquina do tempo? =)

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